quinta-feira, 9 de outubro de 2008





Chega de lamúrias. Nada de lamentações. O fio da navalha é afiado, e rápido: nos passa pelo pescoço sem que o sintamos tirar nossa vida. Mas tenhamos calma, pois tudo tem seu tempo. O cotidiano nos mata lentamente, porém ainda podemos ver o desabrochar das plantas e o movimento das nuvens no céu, calmamente, numa tarde de outono. Uma melodia fica ainda mais bela quando a ouvimos sabendo que estamos para morrer.

Eterno devir. Transformação sem fim...qual sua finalidade? Coisas simplesmente transformando-se em outras. Estranho este hábito humano: confere finalidade a tudo. – (Talvez o vento não tenha por quê, e por isso mesmo seja mais sincero que nosso vãos anseios. Talvez todas essas preocupações que nos parecem tão reais e todos os problemas que enfrentamos sejam uma mera confusão de ânimo. Aparências cruéis que atormentam o homem-máquina, perdido em sua própria mente atormentada).-





Mas então este mundo deve ser alguma espécie de prova, ou passagem. Como assim, as coisas surgirem, surgirem somente para partirem? E nós, humanos, que diferentemente de todas as árvores, pedras, animais e montanhas, podemos olhar, olhar e ter consciência desta partida sem fim? - Eu, sentado em um café, atento a rua e os transeuntes sem rosto. Saboreio no café o nada que sustenta este espetáculo. A morte, surda, senta ao meu lado. Sinto seu hálito frio em meu rosto. Rio por dentro de mim, sei como está perto agora. Sensação essa que me tira do tédio da rua e dos transeuntes sem rosto. – A morte, o corpo, o fogo. A partida e a passagem.

Aceitemos pelo menos, neste tormento, que cada coisa pela qual passamos tem sua dose de Verdade. Cada momento do Universo faz parte dessa Verdade, pois é um encaminhamento de seu desenvolvimento total, de seu puro movimento...assim como cada ser, pássaro, nuvem ou homem. O propósito, esse propósito que tendemos a procurar em tudo (principalmente esses ingênuos utilitaristas!), aqui não existe; mas também não existe nada fora de um outro Propósito, que engloba tudo e está acima e também dentro de qualquer momento particular, como este que me encontro...e é o encaminhamento de tudo, por meio de tudo: o caminho e destino trilhado pelo Universo...










Pois a vida nos traz um sentimento e um calor que é característico do coração humano; e é isso que confere à experiência o maior dos sentidos.

...

Ah!, mas maldições são as palavras, meras palavras! Conclusões racionais são meras conseqüências de se estar disposto a algum sentimento: quando não nos sentimos bem, podemos assim fundamentar nosso próprio sofrimento, sendo pessimistas. Mas oh, perder-se nesse ínterim, em vez de simplesmente sentir esta brisa fresca no rosto! Pura perda de tempo.

Meras palavras...

Um comentário:

Anônimo disse...

O ultimo parágrafo está estupendo!