quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Anjos no Ar



Dedicado aos bêbados, alucinados, sofredores e pensadores.
Dedico especialmente ao maior de todos esses, o sr. Van Gogh, que vocês devem conhecer muito bem.
O quadro acima é um dos mais belos retratos feitos por ele...
Um misto de mistério e salvação...



...





a farra nas ruas se inicia
naturalmente nas noites propícias

andando de lá pra cá,
anjos-pessoas vestindo corpos
porta afora vão eles andando
com olhares nos rostos
à vista parecem só fantasia
andam, sem saber o destino,
só andam.

com seus trajes coloridos e sorrisos estranhos
ou mesmo com sandálias, pés sujos e trajes brancos,
ou sapatos lustrados, ou pés descalços, calosos e duros
a andarem o mundo
nas noites e dias quentes do litoral
na sarjeta suja que guarda Bêbadas Lembranças
no movimento das ruas de comércio
na voz gutural do vento que corre por sobre
nossas divinas andanças.

anjos sujos, anjos tolos
andando sobre as nuvens
ou mesmo no Inferno da terra
alguns olham de longe, quietos,
outros a falar debulham desejos
alguns sonham escondidos em cantos
outros cantam à noite, sozinhos, pra lua,
uns poucos encontram a Paz verdadeira
pois a vida que se tem por aí, aos montes,
costuma ser
sem eira nem beira.

tem anjos-viajantes que vivem a andar
desejam terras distantes, o exótico, o estranho
sedentos vão, com saudade do futuro, andando...
parecem anjos na sua Visão,
encontram Deus no tumulto de suas almas,
e de novo voltam, para encontrar solidão.

...

anjos-loucos que encontraram vales velados
inabitáveis e cheio de deuses,
sozinhos nos murmúrios da oração;
que emaranharam-se no deserto
em jejuns de quarenta dias
e andaram sobre as águas num sonho;
anjos que perderam-se em florestas
e eram anjos onde tudo eram deuses.

há muitos que choram,
anjos-pessoas caídas em camas,
com copos de vinho vazios, mal-roídos,
a dor trespassando o coração que transborda
escondidos em quartos escuros
os anjos choram
nas cidades da luz.

às vezes atiram-se do topo de prédios
esperando talvez voar,
anjos desesperados que não vêem sentido
na vida da qual só esperam miséria
caem e estatelam-se no chão
anjos caídos, em vão.

existem anjos-máquinas
estes não suportam ficar parados
suam, torcem, se contorcem
nas finanças concentram a alma
nas noites de insônia contam cédulas
e as chamam só de suas
estranho
o dinheiro consome os anjos.

anjos-plantas, anjos-pássaros-
mesmo as pombas sujas da cidade são anjos!-
anjos-gigantes, anjos-formigas,
anjos-bactérias, anjos-sombras,
anjos a discutirem a verdade do mundo,
anjos a declamarem que errados estão outros anjos,
ou que ferem a boa moral dos costumes-
estarão eles perdidos? irão eles queimar
nas regiões abismais?

anjos torturam os anjos-
nas prisões de países de terceiro mundo,
eu vejo anjos perdendo a honra do corpo
sendo jogados de lado,
como num jogo são jogados dados-
muitas vezes anjos promovem, fomentam tal ato
por míseros, efêmeros trocados!

curiosos se observam
anjos-soldados de cada lado da linha
nos campos de batalha da Guerra maldita.
pela idéia de uma nação
aquardam o alvejamento de honra-
anjos atiram-se,
ignorando morte e vida.

anjos-bebês que riem e sujam as fraldas
esses são os anjos mais divinos do Pai
suas mentes repousam em perfeita harmonia e paz
mas rapidamente aprendem a dizer “meu”
isso por culpa dos ingênuos anjos-pais

existem também anjos-lembranças
opacas imagens de sonhos distantes
anjos-pensamentos que não se sabe se vivem dentro ou fora dos homens-
anjos esses que passam suspirando nos ares,
são vívidos, influem na Terra,
e por vezes fazem os homens chorarem.

o santo dos santos é o bêbedo a caminhar
vacila, incerto,
e por isso mesmo é anjo no ar
vive a viver um sonho,
como todo o anjo faz, quando aqui na Terra está.
mas o bêbedo vive numa cidade santa-
com olhos vidrados,
caído na porta do bar,
encara os anjos-pessoas como uma criança
olha as luzes, os carros a passar
em devaneio sua mente se apraz
seu sangue ferve
e sua alma bebe...

não digo que como anjo nunca antes senti avidez,
ou luxúria, talvez até sede de coisas insanas,
que a um padre não pareceriam santas,
como pensamentos psicopatas, ou poesias na madrugada
mas anjo também bebe,
transa, sofre
e continua anjo.

-Há anjos no ar.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

A Negação da Poesia

onde está o meu copo de marasmo?

notificação do poeta
sobre o maravilhoso
sol de baunilha.
ego é uma pulseira bem presa ao pulso,
vida são as cores dos cabelos
das putas do Oriente.

o caminho das formigas é denso
adentra as entranhas e vísceras
o eterno zum-zum-zum,
o grande e inefável fluxo
dos poderosos átomos de carbono.

minha mente
metamorforseada em
palavras e tédio.
a eternidade
é o segundo ante a explosão.
os arranha-céus são muitos
nas cidades das falsas luzes
mas não podem voar.

hollywood fede.
os carros fedem.
meu pé fede.
teu pensamento fede.
as mansões subterrâneas
das idéias de gênios bêbedos fede.

(a noite de porre de Hitler.)

o silêncio reina absoluto por sobre a Torre de Babel;
feita do papelão das moradias de mendigos da grande São Paulo,
dos papiros chamuscados de Alexandria,
das pedras e lágrimas da Grande Muralha do Oriente,
das ânforas de vinho das fenomenais bacanais romanas,
das lâmpadas quebradas da Grande Revolução Industrial
que ainda nos mastiga com seus grandes dentes de ferro.

a luz fria das salas de aula.
a sombrancelha franzida do busto de Marx.
o cocô das pombas por sobre as catedrais.

Jim Morrison visitou-me noite passada
bebemos vinho barato e nostalgia.
contou-me feitos gloriosos,
me fez ouvir os dolorosos gritos das mães
(e por que não dos cachorros?)
e de crianças esfaqueadas
na conquista de impérios.
me fez acreditar que a guerra é justa.

grandes navios
munidos de velas e remos
cruzando mares e névoas
trazendo o grito alucinado da chama inextinguível,
a ônix engastada de mente defasadas,
trazendo o nome que se dá ao homem
à terra dita Novo Mundo.

seu eco ainda se faz ouvir nas profundezas
dos rios cobertos de cipó e teias de aranha.

(a lagartixa saiu em disparada
desprendendo-se de seu rabo
que ainda se debateu por instantes,
deixando o resto de suas forças,
que se dissiparam no grande Tudo e Nada,
na transparência do invisível,
para se reintegrar em meu cérebro humano
e incrustado de conceitos mal-resolvidos.)

querem me fazer acreditar que a estética é tudo.
que a interface cibernética dominará o mundo
e ainda salvará a raça humana.
e esses cogumelos azuis continuam crescendo
perto das raízes das árvores do Grande Bosque.

se os adjetivos se extingüissem
o homem não passaria de um cadáver adiado.
(ainda bem que posso viver
da citação de grandes poetas).

o marsúpio da civilização
das tribos de selvas profundas
dos surdos mudos que não se curvam ao tempo
e de tudo que existe sob o véu do entendimento humano
é uma caixa de sapatos
sem marca de fabricação.

a cor do céu dos campos do Sul ao entardecer,
eu a vejo só nos sonhos mais profundos.
o legado de minhas pegadas
é a prova de minha existência na interrupção das coisas,
nada mais, nada menos.

o senso comum é auto-destrutivo.
a rede em que descansamos
balança como o berço
de outrora.