
Unindo muito do que havia de polêmico, contestador e até mesmo humorístico da conturbada década de 1960, Frank Zappa surge nos Estado Unidos como um precursor do que seria chamado tardiamente de “freak rock”: uma espécie de experimentalismo humorístico non-sense.
O público que o consagrou, desde sua nostálgica aparição no cenário do rock americano, em 1966 – no álbum duplo “Freak Out” -, se identificava tanto com o estrondoso som da guitarra elétrica (símbolo de uma época de eletrificação e ganho de peso da música popular, vindo primeiramente com Chuck Berry, e, mais escandalosamente, com os Beatles), quanto com sua bizarra capacidade de unir a forma de uma música de vanguarda, com influências da música dodecafônica e da expressividade percurssionística inovadora de Edgard Varèse, com os gêneros populares americanos, como o jazz, o rockabilly e o blues. Além disso, Zappa criou polêmica ao inserir o elemento humorístico e crítico em suas músicas, criticando os hábitos da própria juventude e da música de mercado norte-americanos, simbolizadas pela poderosa imagem pública e comercial dos Beatles e pelo uso constante de drogas como o LSD ou a maconha como um caminho de “liberação”. A crença em um "amor que superasse todas as tolices cometidas pelos seres humanos", presente nas idéias de John Lennon, por exemplo, foi uma idéia confrontada por Zappa de modo hilário em sua música “Oh No”, de 1967. A banda de Liverpool foi alvo constante de suas piadas e satirizações, a ponto da arte de capa de um de seus álbuns mais aclamados, “We’re only in it for the money” (1968), que claramente satirizava a capa do clássico álbum psicodélico da banda, “Sargeant Peper’s Lonely Heart’s Club Band”, ser censurada pelo conservador governo norte-americano. Esse episódio foi o primeiro de muitos envolvendo a censura e a música de Zappa, que foi o responsável pela criação, décadas mais tarde, do selo de censura “Parental Advisory”, pela legislação norte-americana.

"We're Only In It for the Money", 1968
Também contribuiu, em sua fusão de estilos, para o desenvolvimento de um novo gênero que surgiu em meio à década de 60, o jazz-rock, presente também de forma pioneira na música do quinteto de Cannonball Adderley e na música eletrificada de Miles Davis. Tal estilo consistia em aplicar a improvisação e sofisticação harmônica e melódica do jazz através de instrumentos elétricos e do peso do rock. Esta tendência, voltada para a música instrumental, está presente principalmente em seus álbuns Hot Rats (1967), Waka/Jawaka (1972) e The Grand Wazoo (1972). Sua carreira da década de 60 era admirada por um público relativamente restrito, representado principalmente pelo público intelectual americano e europeu e por todos os apreciadores e ativistas da contra-cultura. A partir de 1973, com seu álbum “Over-night Sensation”, adquire contato com o grande público, e se torna um sucesso comercial. Após esse ganho de popularidade, continuou a produzir material intensamente, muitas vezes lançando dois ou três álbuns no mesmo ano, com autoria, produção e arranjos desenvolvidos por ele mesmo, em sua própria gravadora.
Por toda sua carreira, Zappa recrutou músicos de extrema habilidade e criatividade, que acabaram por se tornar grandes nomes da música mundial: o tecladista de fusion George Duke, o virtuoso guitarrista Steve Vai e o grande violinista Jean Luc-Ponty, entre muitos outros. O trabalho de sua banda, que sempre demonstrava em seus históricos shows monstruosa sofisticação e minúcia, em suas peças dificílimas de serem tocadas, demandava treino intenso em estúdio, muitas vezes de até 8 horas por dia.

Uma dica pessoal para conhecer o som desse figura são os álbuns "Lumpy Gravy", de 1968, obra que se inspira na música de Edgard Varèse (artista francês do séc. XIX que ampliou o conceito de música e som com o advento de inusitados instrumentos de percussão), primeiramente muito difícil de ser ouvida, mas mesmo assim muito bela. Ela é constituída de duas partes, que por sua vez se subdividem em vários pequenos fragmentos que variam entre diálogos, jazz, efeitos inovadores de produção e eletrônica, e, é claro, o bom e velho (e novo) rock. Já para os menos pacientes, indico "The Grand Wazoo", de 1972, um excelente e reconhecidíssimo álbum instrumental de jazz-rock.
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Zappa ensina a manter-nos atentos, a rir, gargalhar, cheirar o "algo de podre no reino da Dinamarca" que ronda à espreita, a saborear a contradição e ver cair a máscara que de velha não tem nem nome. Enfim, a usar a criativa insanidade para romper com o que está por aí, nos tornando pedras, figuras estáticas e mortas.
"Help I'm A Rock"!
Um comentário:
Zappa faz da música um cenário polimorfo, algo extremamente raro até os dias de hoje. Polimorfo no sentido de misturar estilos e juntar a eles o humor, a interpretação, o domínio da técnica e a incorporação de sons e histórias do cotidiano em suas canções.
Um gênio puro.
Parabéns pela resenha seu cusão. Agora ve se aparece mais na internet.
abraços
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